FMTA EUA
A arte de desacelerar sem quebrar
Os Estados Unidos chegam ao fim de 2025 com uma sensação curiosa para quem acompanha de perto ciclos econômicos. A economia não está forte o suficiente para chamarmos de expansão vibrante, mas também está longe de qualquer sinal clássico de recessão. A inflação esfriou, mas ainda mantém calor suficiente para perturbar o Federal Reserve. O consumo perde força, embora continue sustentando setores específicos. E a política monetária, que passou dois anos no modo combate, agora caminha lentamente para um território intermediário que não estimula, mas também não sufoca.
A inflação resume bem a transição. O CPI e o PCE convergiram para algo ao redor de 2,7% a 3%. É um avanço significativo em relação ao período de stress pós-pandemia, mas não representa um retorno pleno ao regime pré-2020. O componente de serviços continua pressionado por salários que não cedem com a velocidade desejada. Essa dinâmica impede que o Fed declare missão cumprida, mas permite que ele trabalhe com uma noção mais ampla de estabilidade.
O crescimento também mudou de composição. A primeira metade do ano foi surpreendentemente forte, puxada por tecnologia, serviços de maior renda, investimento industrial e programas de infraestrutura. Já o segundo semestre trouxe moderação e revelou um país dividido em dois ritmos. Setores ligados à inovação, semicondutores, defesa, energia e digitalização continuam crescendo. Ao mesmo tempo, segmentos de consumo mais amplo, varejo tradicional, manufatura sensível ao crédito e habitação mostram perda de fôlego. É uma economia que desacelera sem desmoronar.
O mercado de trabalho, que foi o grande protagonista do ciclo pós-pandemia, começa a se ajustar. A criação de vagas diminui, a mobilidade entre empregos cai e os pedidos de seguro-desemprego sobem discretamente. Esses sinais indicam que o mercado de trabalho não será mais o motor de sustentação infinita do ciclo. Ao mesmo tempo, o ajuste é suave o suficiente para evitar quedas bruscas na confiança do consumidor.
A política monetária acompanha esse processo com uma postura quase cirúrgica. O Fed reduziu a taxa básica para algo próximo de 4%, mas faz questão de reforçar que a trajetória de cortes será lenta. O objetivo não é acelerar a economia, e sim evitar efeitos colaterais de um aperto prolongado. O recado é claro. O Banco Central aceita crescer menos para garantir que a inflação não volte a escapar.
O contexto fiscal é o ponto mais sensível da equação. A dívida ultrapassa 38 trilhões de dólares e tornou o custo de rolagem uma variável estrutural do ciclo. Isso reduz drasticamente o espaço político para qualquer política fiscal expansiva. A economia americana, portanto, depende mais da calibragem monetária do que dos impulsos fiscais para atravessar períodos de desaceleração.
Diante desse pano de fundo, três narrativas possíveis se apresentam.
A primeira é a mais coerente com os sinais atuais. É a narrativa do pouso suave. A inflação segue perdendo força sem voltar ao centro da meta, o desemprego sobe apenas moderadamente e o Fed administra um ciclo de cortes cuidadoso. A economia cresce entre 1,5% e 2%, longe do vigor passado, mas ainda sólida o bastante para evitar rupturas. Esse é o cenário que se encaixa melhor na combinação de dados e comportamento dos mercados.
A segunda narrativa é a da economia em dois ritmos (ou em forma de K). Ela descreve um país em que setores estratégicos continuam avançando enquanto outros enfrentam a fricção dos juros altos e da perda de tração do consumo. O PIB esconde essa divergência, mas a microeconomia revela. É uma narrativa menos estável que o pouso suave, mas ainda compatível com um ambiente de risco administrável.
A terceira narrativa é a do risco de reflação. Esse é o único caminho que realmente ameaça a organização atual do ciclo. Um choque de petróleo, uma nova rodada de tarifas, tensões geopolíticas mais intensas ou uma reaceleração dos salários poderiam reacender a inflação e obrigar o Federal Reserve a interromper a queda dos juros. Não é a tendência principal, mas é o principal risco.
Entre essas três leituras, a narrativa do pouso suave ainda parece a descrição mais fiel do momento americano. Não porque seja perfeita, mas porque ela organiza bem os sinais dispersos. Um pouco de desinflação, um pouco de perda de vigor, um pouco de cuidado monetário e muita força estrutural em setores específicos. Nada aponta para ruptura iminente. Nada aponta para exuberância.
Para o investidor, esse regime produz implicações diretas. A renda fixa volta a ser a âncora natural da carteira global. As Treasuries intermediárias oferecem estabilidade e retorno. O crédito exige seleção precisa. Empresas ligadas à tecnologia essencial, semicondutores, energia limpa, defesa e infraestrutura digital continuam com fundamentos robustos, enquanto segmentos de consumo mais amplo enfrentam condições mais duras. Na bolsa, convicção só existe onde há crescimento estrutural. No restante, há risco sem compensação adequada.
Existe uma assimetria interessante aqui. A renda fixa finalmente entrega retorno real, tecnologia essencial continua crescendo independentemente do ciclo e setores ligados à segurança, energia e produção estratégica ganham relevância em um mundo mais fragmentado. É uma combinação rara no ciclo americano recente. Ela limita o lado negativo e cria pontos de convexidade para quem escolhe seus setores com disciplina.
A síntese é simples. Os Estados Unidos entram em 2026 com menos vigor, mas com mais estabilidade. Crescem menos, mas crescem de forma mais previsível. O Fed corta juros sem pressa. O mercado de trabalho esfria sem romper. E os principais setores estruturais do país continuam em expansão. Não é uma economia espetacular, mas é uma economia funcional. E, em um mundo que opera com mais ruído do que clareza, funcionalidade é um ativo relevante.



