FMTA Japão
Entre a normalização e o peso da própria história
O Japão entrou em 2025 vivendo algo que, para a maior parte do mundo, pareceria trivial, mas que para ele era quase revolucionário. Depois de décadas convivendo com juros zerados, inflação inexistente e uma política monetária permanentemente excepcional, o país finalmente começou a experimentar algo próximo de normalidade. E essa transição, embora lenta e cuidadosa, carrega implicações profundas para a economia doméstica, para os mercados globais e para o próprio papel do Japão no sistema financeiro internacional.
A inflação, que por muito tempo foi um fantasma inexistente, passou a se manifestar de forma mais consistente. Não se trata de um surto descontrolado, mas de um processo gradual, sustentado por salários que finalmente começam a crescer, por repasses de custos importados e por uma mudança lenta, porém real, no comportamento das empresas. Pela primeira vez em muitos anos, o Banco do Japão precisa lidar com um ambiente em que a inflação não pode mais ser ignorada.
Esse movimento muda completamente a lógica da política monetária. O Banco do Japão iniciou uma retirada extremamente cautelosa de estímulos, encerrando práticas que pareciam permanentes. Ainda assim, o faz com um cuidado quase cirúrgico. A razão é simples. O Japão carrega uma das maiores dívidas públicas do mundo em proporção ao PIB, e qualquer alta abrupta de juros teria efeitos diretos sobre o custo de financiamento do Estado, além de impactos relevantes sobre o sistema bancário e sobre a confiança dos agentes.
Ao mesmo tempo, o iene permanece estruturalmente fraco. Parte disso reflete o diferencial de juros ainda elevado em relação ao resto do mundo. Parte reflete décadas de política monetária ultra acomodatícia que moldaram a percepção dos investidores globais. Esse câmbio mais depreciado ajuda as exportações, melhora a competitividade das empresas japonesas e sustenta lucros corporativos, mas também encarece importações e pressiona o custo de vida doméstico. É um equilíbrio delicado, que o Banco do Japão tenta administrar sem movimentos bruscos.
O crescimento econômico segue modesto, mas relativamente estável. O Japão não cresce rápido, mas cresce com previsibilidade. A economia é sustentada por exportações, por setores industriais sofisticados, por cadeias globais de valor e, cada vez mais, por uma melhora lenta no consumo doméstico, impulsionada por salários um pouco mais altos. Ainda assim, os desafios estruturais continuam evidentes. A demografia segue desfavorável, a força de trabalho encolhe e a produtividade cresce apenas marginalmente.
Diante desse pano de fundo, três leituras principais se apresentam.
A primeira é de uma normalização gradual. Nela, o Japão continua avançando lentamente para fora do regime excepcional, permitindo alguma inflação, aceitando salários mais altos e ajustando a política monetária de forma quase imperceptível. O Banco do Japão evita choques, o iene permanece relativamente fraco e as empresas seguem se beneficiando de margens mais saudáveis. É um cenário de transição controlada, sem rupturas, mas também sem grandes saltos.
A segunda leitura envolve o risco de erro político. Um movimento mal calibrado, seja uma retirada rápida demais de estímulos ou uma comunicação mal interpretada pelo mercado, poderia gerar volatilidade abrupta no iene, pressão nos juros longos e desconforto fiscal. Esse risco não é central, mas existe, justamente porque o Japão está reaprendendo a operar fora de um ambiente artificialmente estável.
Por fim, há também a possibilidade de um renascimento corporativo silencioso. Muitas empresas japonesas passaram os últimos anos ajustando governança, reduzindo ineficiências, recomprando ações e melhorando retornos sobre capital. Com um câmbio favorável e inflação moderada, esse processo pode ganhar tração e gerar um ciclo de valorização mais estrutural do mercado acionário, especialmente em empresas industriais, tecnológicas e exportadoras.
Entre essas leituras, a que melhor descreve o Japão hoje é a primeira. O país avança com extrema cautela. Nada acontece rápido demais. Nada é permitido sair do controle. A normalização existe, mas é conduzida como se qualquer erro pudesse ser irreversível. Esse ritmo lento pode frustrar quem busca grandes histórias macro, mas oferece um tipo específico de estabilidade.
Para o investidor, esse cenário traz implicações claras. O mercado acionário japonês passou a oferecer uma combinação interessante de governança melhor, margens mais saudáveis e valuation ainda razoável quando comparado a outros mercados desenvolvidos. Empresas exportadoras, industriais e ligadas a tecnologia de base se beneficiam de um iene fraco e de cadeias globais que continuam valorizando eficiência e confiabilidade.
Na renda fixa, o espaço para ganhos é mais limitado. A política monetária ainda mantém juros muito baixos, e qualquer normalização será lenta demais para gerar retornos expressivos em duration. O verdadeiro impacto do Japão na renda fixa não está nos retornos domésticos, mas no efeito que mudanças no comportamento do investidor japonês podem ter sobre os mercados globais, especialmente se houver repatriação de capital.
Existe uma assimetria sutil, mas relevante, no Japão atual. O downside é amortecido por décadas de cautela institucional e por uma política monetária que prefere errar pela lentidão. O upside vem de algo menos óbvio: uma inflação moderada, salários crescendo e empresas mais eficientes criam um ambiente que o Japão não via há muito tempo. Não é uma revolução, mas uma silenciosa mudança de regime.
A síntese é clara. O Japão não é um país em aceleração, mas em transição. Ele deixa para trás um mundo de exceção monetária e entra, aos poucos, em um ambiente mais normal. Essa transição é lenta, cheia de cuidados e marcada por receios históricos. Mas, justamente por isso, ela pode produzir oportunidades interessantes para quem entende que, no Japão, as mudanças mais importantes quase nunca fazem barulho.



